
Foto: Jessé Giotti
Alheio às facilidades da tecnologia, o tempo segue outro ritmo na cervejaria Canoinhense, uma das mais antigas do Brasil no ramo artesanal, provavelmente a mais antiga em funcionamento no País, fundada em 1908.
Os ponteiros dos relógios, os poucos encontrados no galpão de fabricação e no casarão do casal Loeffler, correm pelos mesmos segundos daqueles suspensos nas paredes das construções mais modernas da rua Três de Maio, no Centro de Canoinhas, região Norte do Estado.
Mas ali, a pressa e o corre-corre da rotina urbana parecem não ultrapassar os portões verdes do imóvel de esquina. As vidas que dão continuidade à atividade parecem seguir a mesma cautela necessária para tornar de forma artesanal a cevada em líquido.
Tudo é capricho na propriedade de Rupprecht Loeffler, 93 anos, e da esposa Gerda, 86. As flores e folhagens são tratadas com esmero a ponto de serem acolhidas dentro de casa nos primeiros indícios de geada. Já os horários e datas, ainda que sentidos em outro compasso, são seguidos com rigidez.
O bar, que fica no número 154 da rua Três de Maio, onde é vendida a produção de 2.780 garrafas mensais, abre às 8h30 e fecha exatamente quando o sol se põe – por isso, é normal que no verão os visitantes sejam atendidos em um horário prolongado.
E é exatamente uma vez ao mês que o processo de fabricação de quatro tipos de cerveja movimenta o expediente dos dois únicos funcionários da pequena cervejaria. Os cervejeiros Raul e Tadeu colocam em prática os ensinamentos do senhor Loeffler, passados pelo seu pai, Otto, e que ele transmitiu aos filhos, netos e bisnetos.
Raul e Tadeu não são da família, mas preservam o legado como se fossem. Os funcionários são aposentados e exercem as funções de mestres cervejeiros, atendentes e caixas do bar, enquanto a saúde de Loeffler se restabelece.
A cevada, ingrediente principal da produção, é moído em instrumentos extintos nas grandes cervejarias do mundo. A planta vem de Guarapuava, no Paraná, e após passar pelo primeiro processo é levada ao tacho para cozinhar. A água, essa sim, ingrediente de exclusividade dos Loeffler, vem do poço que fica no subsolo da construção, o mesmo que abastece a residência do casal.
Livre de cloro, o líquido que se mistura ao suco extraído da cevada volta para o tacho, agora fervido com o lúpulo – espécie de trepadeira responsável por conferir à cerveja o sabor amargo e o aroma característico da bebida.
A mistura é posta para resfriar, até alcançar a temperatura ideal para ocupar o tanque de fermentação. A cerveja em seu estado primário adormece de seis a sete dias. Pronto para descansar em cinco barris centenários, trazidos da Alemanha pelo pai do proprietário, o líquido aguarda o engarrafamento durante dois dias para ser gaseificado e lacrado em garrafas reaproveitadas.
Parte da produção não passa pela pasteurização, o que acrescenta mais uma qualidade nas cinco variáveis da Canoinhense. O chope, que pode ser claro ou escuro, tem um prazo de validade mais curto e colarinho mais generoso, mas o sabor, dizem os amantes da bebida, é um presente ao paladar, ainda mais se for servido bem gelado.
A fabricação esconde em seus detalhes a receita da longa vida das marcas Jahú (pilsen), Mocinha (pilsen suave), Nó de Pinho (kulmbach) e Canoinhense Malzebier. O fermento é o reaproveitamento de uma sequência de produção que iniciou em 1924 com a família Loeffler.
O que dá fidelidade ao sabor precisa de importantes cuidados que, se esquecidos, quebram uma corrente quase centenária. Para tanto, Raul faz questão de trocar semanalmente a água que mantém o fermento em perfeito estado de conservação.
O único procedimento que foge aos aprendizados familiares, talvez a única inovação incorporada após a compra da cervejaria, está na lavagem dos engradados. O trabalho que antes era manual – os funcionários usavam escovões para retirar os restos de fermento no fundo da garrafa –, agora é feito em uma espécie de moinho.
O equipamento nada moderno, porém útil, mergulha os vidros vazios, retirando os resíduos de cerveja. Isso porque a maioria das embalagens são reaproveitadas. A economia também está no uso dos rótulos.
As garrafas que são consumidas no local não são identificadas com os selos de papel. Neste caso, a originalidade do líquido é com- provada pela coloração das tampas: a verde, Nó de Pinho; a amarela, Mocinha; a verme- lha Canoinhense Malzebier; e a azul, Jahú.
Decoração curiosa
As garrafas são vendidas a R$ 2,50 no bar do Loeffler que, originalmente, não existia na construção comprada por Otto Loeffler, quando Canoinhas era chamada de Ouro Verde, uma alusão a principal riqueza do mu- nicípio: a erva mate. Antigamente, elas também eram distribuídas pelo próprio Rupprecht Loeffler em cida-des da região, mas hoje são exclusividade do bar, a não ser que algum interessado leve algumas garrafas a fim de comercializá-las.
O local também chama a atenção pela decoração incomum. No lugar de cartazes de cervejas, estão animais empalhados, alguns portando violões e canecas de chope. Amparados pela geladeira antiga, vidros com cobras, aranhas e até um filhote de porco com duas cabeças fazem parte do curioso acervo de uma outra paixão do proprietário da cervejaria. A caça dividiu por muitos anos as atividades de mestre cervejeiro. A função de empalhar os animais era feita pelo irmão de Loeffler, já falecido. Os exemplares dos peçonhentos eram encontrados no caminho, muitos deles encaminhados até o Instituto Butantã, em São Paulo.
Lá não se vende mais cachaça, apesar da insistência de alguns moradores que batem a porta do espaço ainda pela manhã. A imposição partiu de Gerda, uma forma de selecionar a clientela. Para os visitantes, um kit de papelão contendo os quatro exemplares de cervejas são vendidos a R$ 15. Além da bebida alcoólica, outra exclusividade do bar são as gasosas, também fabricadas pela Canoinhense. Os sucos gaseificados são armazenados em engradados de outras marcas de refrigerantes.
Dentro do bar não há mesas de alumínio nem de plástico, comum em comércios do mesmo ramo. Apenas uma mesa de madeira é o refúgio para os clientes durante o inverno. No verão, o bom é experimentar a cerveja nos bancos de concreto do jardim.
Uma história escrita por muitas mãos
Contam os registros cuidadosamente transcritos por Gerda Loeffler que a cervejaria artesanal mais antiga de Santa Catarina foi fundada em 1908 pelos amigos Pedro Werner e Otto Brochmann. A produção teve de ser interrompida em 1912 com a Guerra do Contestado. Durante quatro anos, a cervejaria, já batizada com o nome que a cidade tinha na época, ficou com suas portas fechadas.
O recomeço da fabricação ficou a cargo do novo proprietário, Luiz Kaesemudel, que se manteve há uma década a frente do funcionamento da cervejaria. Só em abril de 1924 a propriedade passou para Otto Loeffler, que aprendeu a fazer cerveja na Alemanha e, logo que chegou ao Brasil, colocou em prática o aprendizado primeiro em Corupá. Na época, Rupprecht Loeffler tinha apenas seis anos.
A cervejaria foi herdada pelo filho mais novo de Otto, Guilherme, que acabou vendendo a herança para o irmão Rupprecht. Representados até hoje pela cervejaria, os Loeffler agora contam com poucos membros que ainda querem levar adiante a tradição familiar. Os quatro filhos de Rupprecht, Elfi, Walli, Doris e Werner, não moram em Canoinhas. Doris mora em Novo Hamburgo (RS), Elfi e Walli em Cuiabá (MT) e Werner em Porto Alegre (RS). Todos nasceram no Norte de Santa Catarina, mas seguiram outros caminhos. “Sempre que podem, eles vêm nos visitar”, avisa Gerda.
Loeffler ainda sonha com um sucessor. Ele ensinou o modo de fabricação de cerveja artesanal para todos os descendentes e espera que um deles tome conta do legado. Vender? Nem pensar. Está fora dos planos ter que se desfazer da propriedade. O mestre cervejeiro conta com a vinda do sobrinho João, de 24 anos, que faz faculdade em Porto Alegre para tomar conta da produção, mas Gerda não confirma as esperanças do marido.
AS ESTRELAS
Mocinha: assim como o nome, a cerveja é delicada. O sabor suave e o álcool quase imperceptível é uma das características da Mocinha.
Jahú: o nome é uma homenagem ao primeiro aviador da américa a cruzar o Oceano Atlântico – o hidroavião foi batizado de Jahú por João Ribeiro de Matos. A bebida, no entanto, é caracterizada pela cor dourada, um pouco adocicada, levemente amarga.
Canoinhense Malzebier: adocicada, a cerveja escura é talvez uma das mais fortes da produção, não pelo álcool, mas pelo sabor.
Nó de Pinho: “Quem sugeriu o nome da bebida foi um português”, lembra Loeffler. Como na época os fornos eram alimentados com o nó de pinho, em vez de lenha, o nome pegou. A variação da Canoinhense tipo Kulmbach de alta fermentação. O sabor do malte torrado é forte, quase lembrando o uma mistura de chocolate com café.
Paixão em comum
Por trás da figura simpática do outro lado da mesa, possivelmente o mestre cervejeiro com mais anos de atividade no Brasil, está a mulher Gerda Loeffler, 86 anos. Debilitado depois de quebrar uma das pernas e enfrentar uma pneumonia, Rupprecht Loeffler, 93 anos, não participa do ritual que uma vez ao mês acontece naquela antiga construção, o que não impede que ele percorra a distância de casa a cervejaria de cadeira de rodas, para conferir o movimento do bar.
Não fosse os imprevistos, lá estaria ele zelando de perto pela produção do líquido, assim como fez durante mais de 70 anos. Mesmo não podendo participar ativamente da fabricação como antes, ele não se abstém da tarefa mais importante. Depois de pronta, a produção passa pela sua aprovação. A degustação da receita que está na família há cinco gerações é feita pacientemente. O líquido envolvido pela espuma é experimentado em leves bochechos. O sorriso do mestre cervejeiro, após mais uma comprovação da autenticidade da bebida, é tranquilizador. “Esta é a cerveja que prolonga a vida”, diz Loeffler, saudando com a caneca cheia.
O brinde é feito pelo menos duas vezes ao dia, ao meio-dia e à tarde. Loeffler toma as duas garrafas da sua marca preferida, a Jahú. “Gosto porque é a mais amarga”, diz ao saborear um gole. Ele é acompanhado pela esposa, que também faz questão de manter o costume. Ela segue a mesma preferência, mas confessa ser apaixonada pela gasosa de gengibre, uma reserva especial para a família. “Tomo todos os dias”, afirma a senhora.
A cervejaria é a paixão que une marido e mulher. Como Loefller já não conta com o mesma disposição de antes, Gerda é quem toca a propriedade. Sem mesmo pensar em parar com a pequena produção, agora ela comanda uma pequena reforma no galpão. Mas a troca do forro e a instalação de corrimões nas escadas em nada vão modificar o que ali se faz há décadas.
“Cerveja Falada”
Uma viagem no tempo. Foi assim que o diretor Guto Lima definiu o lugar que serviu de fonte para o documentário “Cerveja Falada”, produzido em conjunto com Luiz Henrique Cudo e Demétrio Panarotto.
Os três diretores, da produtora Exato Segundo, de Florianópolis, conheceram a cervejaria Canoinhense durante as gravações do projeto “Santa Catarina em Cena”, da RBS TV, em 2007. O roteiro de cervejarias surgidas a partir da chegada dos imigrantes alemães ao Estado contemplava deste as que estão em atividade até as que já não existem mais. A Canoinhense ficou no meio termo, como a que ainda man-tém a forma de produção do século 19.
O documentário surpreende pelo ineditismo e pela vitalidade do mestre cervejeiro que, durante as filmagens, coordenava uma curta, porém, valiosa, fabricação. “Cerveja Falada” tem Rupprecht Loeffler como personagem principal – virou uma espécie de convite de 15 minutos para conhecer a construção em Canoinhas.
Uma equipe de cinco pessoas fez duas viagens para a cidade, em junho e julho de 2009. Nestas curtas horas, os diretores buscaram conviver ao máximo com a família e com a cidade que, inclusive, presenteou a equipe com outro projeto. A produtora pretende colocar em prática o registro do distrito Marcílio Dias. O que chamou a atenção dos diretores é que o pequeno vilarejo de Canoinhas tem uma diversidade cultural que desencadeou uma arquitetura ímpar. Entre as residências, o estilo enxaimel predomina sem que seja possível perceber uma unidade arquitetônica.
Premiado em 2008 no edital Prêmio Cinemateca Catarinense, da Fundação Catarinense de Cultura, “Cerveja Falada” estreou em agosto em Canoinhas – com direito a duas sessões lotadas. A exibição do curta-metragem para os moradores serviu de homenagem para o tão ilustre morador, seu Loeffler.
Em Florianópolis, o lançamento do DVD está previsto para outubro. Pela importância histórica, o documentário será legendado em diferentes línguas e ganhará cenas extras. “É talvez uma das poucas cervejarias do mundo a manter o mesmo modo de fabricação”, ressalta Lima.
Por Rafaela Mazzaro | rafaela.mazzaro@an.com.br
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