terça-feira, 1 de setembro de 2009

Herói de Duas Espadas - José Engling


(BIOGRAFIA)


I - A Cama do Coração (espiritualidade, princípios, dignidade).

Encravado no extremo sul do Ermeland, pertence ao município de Rössel, encontra-se Prossiten, aldeia de algumas centenas de habitantes. Entre eles está o alfaiate Augusto Engling. Ali vive com seus três filhos e sua esposa Maria Masuth, que espera a chegada do quarto. O nascimento deste último se dá no dia cinco de janeiro de 1808. Quatro dias depois é batizado com o nome de José Luís – nomes de dois santos que ele havia de honrar com sua vida.
O pequeno crescia sadio. Mas eis que um dia a tristeza invadiu a casa do alfaiate. José era acometido de poliomielite, cujos sinais o marcariam pelo resto da existência. Ficou com os ossos da coluna levemente deformados e os ombros encolhidos, o que fazia com que caminhasse meio encurvados. Também experimentava dificuldades na pronúncia, principalmente das consoantes r, s, l. Esses defeitos, como é natural, chegam ao fundo do coração da mãe, que procura compensa-los com maiores demonstrações de afeto, demonstrações que contribuíram para despertar nele uma rica vida emotiva, as boas qualidades do seu coração e sua alma profundamente piedosa. A intimidade com a mãe fez também com que, mais tarde, já rapaz feito, fosse capaz de conversar com ela, de forma desenvolta e livre, sobre questões religiosas.
Mamãe Engling era a própria imagem da mãe cristã. Quando falava de Deus e das coisas santas, o olhar se lhe enchia de ternura, a voz amaciava-se, sua linguagem tornava-se poética e sugestiva. Isso acontecia principalmente à noite, quando contava aos filhos histórias de Jesus e dos Santos.
De uma feita estava falando sobre o nascimento de Jesus. Lembrava o frio da noite, o escuro da gruta abandonada, as palhas da manjedoura, o sofrimento da mãe por não poder agasalhar melhor o filho recém-nascido.
Tão impressionante era aquela história que o pequeno José não se conteve: “Pois eu dou a minha cama para o Menino Jesus”.
A mãe então lhe explicou: “A melhor cama que você pode oferecer ao Menino Jesus é o seu coração, contanto que o mantenha sempre limpo de pecados”.
Com isso, ela dava início a todo um trabalho de educação para a delicadeza de consciência.

II - Decisão vocacional (Vocação, compromisso cristão, liberdade).

No verão de 1911, José aproveitava as férias para trabalhar, como empregado, numa granja perto de Landau. Quem o visse nas lides da roça o tomaria por um camponês, tal sua constituição e o ardor com que trabalha.
Nas horas de folga, seus pensamentos voam para o futuro: “O que vou ser na vida?”.
Seguiria como um camponês? Sentia-se de fato com muita queda para isso. Seu desejo inato de ação, seu físico robusto e seu amor à natureza podiam muito bem encontrar sua realização nesse ramo de atividade.
Mas ele trazia consigo umas revistas, que gostava de ler, pois lhe falavam numa vida mais elevada. Uma delas intitula-se “O Rosário” e a outra “Estrela da África”. Vinham ambas de Limburgo e eram publicadas pelos padres palotinos. O que nelas lera sobre missionários e propagação da Fé lhe interessava em cheio.
Desde então sabia o que desejava ser na vida. Manteve, porém, sua resolução em segredo. Só no ano seguinte, depois de ter voltado a segunda vez de Landau, preveniu a mãe: “Caso o patrão lhe falar em minha volta no próximo ano, não se comprometa”. Um pouco intrigada, a mãe lhe perguntou o que pretendia fazer, afinal. “Espere até depois de maio, então lhe direi”, foi sua resposta.
Pela alusão ao mês de maio não era difícil adivinhar que ele confiara a solução do seu problema à Mãe do céu.
Nos últimos dias de maio, José procurou o pároco e lhe desvendou o segredo: queria ser padre. Pediu-lhe que encaminhasse o seu pedido de ingresso à sociedade dos palotinos. A petição foi dirigida ao providencial dos palotinos, em Limburgo. Nela José mesmo explicava a razão de sua entrada no seminário: “Tornar-me padre e tomar parte na propagação de Fé”. Poucos dias depois chegou a resposta positiva, com a promessa de um bom desconto no pagamento dos estudos.
Assim, bastante autônomo, quis ele próprio abrir seu caminho, e só depois foi levar a notícia aos pais que, de bom grado, lhe deram sua aprovação e sua benção.
A partir desse dia, José começou a receber lições de Latim do pároco, pois já no dia vinte e quatro de setembro (1912), deveria apresentar-se no seminário de Schoenstatt, perto de Vallendar.

III - Um Bonito Lugar (aparências, o templo, a igreja, pedras...).

Na ultima hora foi decidido que o pai de Engling, o acompanharia. A viagem, naturalmente, deveria efetuar-se do modo mais econômico. Servir-se-iam de um trem de quarta classe; era a passagem mais barata que se conseguia nas ferrovias alemãs. Em compensação, poderiam desfrutar à vontade as belas paisagens que se estendem ao longo de todo o percurso e conhecer uma infinidade de estações desde Frankenau até Vallendar.
Depois de dois dias de maçante sacolejar, soltaram um suspiro de alívio. Enfim Vallendar. Logo se encaminharam a Schoenstatt, esperançosos de repousar seus corpos fatigados.
Enquanto avançam por entre as velhas cerejeiras, que margeiam a estrada, contempla o vale de Schoenstatt, todo salpicado de abetos e pontilhado de vetustas construções. Ali está o antigo claustro das agostinianas, como que arcado ao peso dos séculos. Ladeiam-nos duas torres romanas, evocando setecentos anos de história. No alto da colina, o seminário novo, com seus três andares crivados por longas filas de janelas. José encara-o num misto e entusiasmo e estupefação. Que senhor casarão! Quantas vezes poderiam caber nele a casa do pai? Como é possível a gente não se perder naquela imensidade?
Felizmente tudo ocorreu bem. Alguns alunos das séries superiores logo se puseram à disposição dos novatos, levando-os a conhecer a casa. Assim, ficaram sabendo onde era a capela, o refeitório, o dormitório, os banheiros, onde se guardava a roupa e como se devia fazer a cama.
José sentia-se feliz em meio àquelas demonstrações de amizade.
E assim se encerra o cenário do nosso jovem herói.

VI - Uma nova vida (dificuldades, relacionamento com as pessoas, auto-educação).

No tempo do seminário, José enfrentou inúmeras dificuldades. No início pela sua adaptação, no ambiente novo e a saudade que sentia da família. Logo nos primeiros dias de convivência foi vítima de gozações, pelos seus colegas da cidade. Era o seu passo pesado, fala enrolada, óculos grandes, tudo era motivo de piada na boca de seus colegas.
José era um jovem do interior, tinha um jeito rústico de conviver, ainda mais, carregava os sinais de sua doença com suas limitações físicas.
Apesar de toda dificuldade, era um jovem esforçado e trabalhador. Não tinha muitos amigos, mas os poucos eram fiéis e verdadeiros.
Com o passar do tempo, as adaptações foram melhorando, José além de ter conquistado a admiração de seus colegas pela sua humanidade conquistou o primeiro lugar na sua turma, com destaque no latim.
Na oração o mais piedoso, nos estudos o mais esforçado, no trabalho o mais dedicado, no recreio o mais alegre, este era o propósito do nosso José.

V - O Seminário (a triste realidade, competição/conflitos, o ideal x real).

Nem tudo era flores na realidade do seminário. Na verdade, existia um ambiente de conflito e discórdia. Motivo este devido à chegada dos seminaristas maiores no seminário novo, vindo de Ehrenbreitstein. No antigo seminário eles tinham mais liberdade e ali além de dividir o espaço com os menores, estavam sujeitos a várias regras que já tinham superado. Escreviam na lousa: “Em uma casa, que não reina a paz, as portas deveriam ser fechadas!”.
Há única solução, encontrada pelos reitores, foi convocar urgentemente um diretor espiritual, para elevar o clima da casa.
Depois de duas tentativas frustradas, enfim chegou um novo diretor espiritual, que mudaria o destino daqueles jovens e em especial do nosso herói de duas espadas.

VI - Um Novo Homem (a missão, heroísmo, libertação – um novo homem, personalidades livres, combate ao moralismo a igreja, o homem massa, amor fraterno: tornar-se tudo para todos, atos convictos, clima fervoroso de fé e transformação espiritual).

Foi nomeado para o cargo um sacerdote jovem que, em Ehrenbreitstein, como professor de Latim e Alemão, revelara um singular senso pedagógico. Seu nome? José Kentenich.
Kentenich acreditou firmemente que Deus, conduzindo-o por este caminho, queria dar-lhe ensejo de realizar um plano secreto que, desde jovem acalentara: a formação dum novo tipo de homem, dentro de uma nova comunidade.
Achava que, para fazer frente ás necessidades da época, deviam surgir na Igreja um tipo de cristão capaz de dar adequada resposta às exigências atuais. Por toda parte fazia-se sentir a ameaça do coletivismo, não tanto como sistema político, quanto como mentalidade. Esse perigo era devido à falta de líderes, de personalidades convictas. Cada vez mais os cristãos tornavam vítimas de opinião pública, transformava-se em rebanhos tangidos pela propaganda. Era, portanto, da primeira necessidade forjar personalidades capazes de superar a falta de dinamismo interior, bem como a crise de rotina e formalismo que ameaçava todo o Ocidente. O homem novo sonhado pelo Pe. Kentenich seria, pois, o cristão de personalidade perfeita, interiorizado, inteiramente decidido por Deus, pela causa do bem e apto a remar contra a corrente do tempo.
Ao homem novo devia corresponder uma nova comunidade, na qual todos, unidos pelos vínculos do mesmo amor, responsabilidades e interesses, se lançassem à conquista da mesma meta. Sua tarefa deveria ser a renovação do mundo em Cristo, levando-o até o Pai, por meio do apostolado universal e sob o estandarte de Nossa Senhora.
E assim sendo, tudo na vida daqueles jovens, obteve um novo sentido.
José Engling fez do ensinamento do diretor espiritual uma regra de vida que culminou com sua morte no campo de batalha.
No dia 19 de abril de 1914, eles criaram uma Congregação Mariana, e o apostolado mariano.
No dia 18 de outubro de 1914, colocaram em pratica a “idéia predileta”, de transformar uma pequena capelinha, de cemitério, num lugar de peregrinação, um santuário, onde a Mãe de Deus reinaria.
Para concretização de tudo isso, exigiu daqueles jovens, um grande propósito de transformação espiritual, auto-educação e inúmeras contribuições para o capital de graças, o ideal da Pureza e o mais importante anseio a “Aliança de Amor” com a Mãe de Deus, intitulada por eles como: “Mãe Três Vezes Admirável de Schoenstatt”. Projeto este que tinha como objetivo a santificação – santos modernos da vida diária.

VII - A Guerra (a idéia predileta, o ideal de santidade, santos modernos, fidelidade, apostolado silencioso, ortopráxi, dia-a-dia, prova).

Porém, este clima de heroísmo, teve uma mudança de cenário. Saiu do vale de Schoenstatt (que significa, um belo Lugar) e foi para o campo de batalhas.
Estourou a Primeira Guerra Mundial. Os Jovens seminaristas foram intimados, pela pátria. O seminário foi transformado em um hospital militar. E a vida dos seminaristas, um inferno de sacrifício e morte.
A fome e o frio estavam presentes na realidade do povo. Injustiça e escravidão em meados à dor e a saudade.
E nesta nova etapa, José Engling, teve novamente que superar todas as dificuldades, de adaptação, gozação, agora por parte dos militares. Tudo se tornou muito mais difícil, pois estávamos falando de vida na intriga da palavra.
Porém, havia conforto espiritual. O ideal de santidade, o Santuário de Schoenstatt, o Capital de Graças - a Idéia Predileta – as palavras de heroísmo do Pe. Kentenich e a fidelidade a Aliança de Amor. Tudo isso acompanhou a trajetória militar de José, e apesar de tudo, mais uma vez ele superou as dificuldades por amor a Mãe de Deus.
Sofrimento, dor, fome, angústia, medo não faltava no seu cotidiano, mas, para tudo isso havia um sentido. Sentido este que imortalizou sua vida no dia 04 de outubro de 1918:

VIII (Fidelidade Heróica, contextualização, a escolha).
“O dia declina. Divididos em dois grupos, os vanguardeiros deslizam junto aos barrancos, para resguardar-se caso de ataque repentino. O da esquerda por um sargento e o da direita por Engling”.

A uma distância de aproximadamente de duzentos metros, José Engling, com seus grupos, deixam a estrada, entram no campo aberto, à direita, põem-se ao refúgio de um barranco e ficam observando o turbilhão infernal das granadas, ao redor da encruzilhada.

- Tomara que tudo saia bem, no meio desse fogo! Murmura um camarada.
- Oh! Sim! Responde José. Até agora tudo correu bem, esperamos que continue.

Aproveitando uma pausa da artilharia saem do esconderijo e arremetem rumo à faixa, deixando de lado a encruzilhada perigosa. Nesse instante estala nova descarga de granadas. Uma delas, em vez de explodir na encruzilhada como as demais, desce a uns dezoito metros à direita. Ao fulgor lívido da explosão, recorta-se a silhueta de uma esquadra de soldados, cujo guia. Os demais se dispersam.

Tão logo cessa o fogo, o sargento e alguns camaradas correm ao lugar do desastre e encontram um homem esvaído em sangue. Imediatamente reconhecem nele o companheiro José Engling. Tem o peito destroçado e a cabeça retalhada pelos estilhaços.
É o dia quatro de outubro de 1918, entre as dezoito e às dezenove horas.
No outro dia, cinco de outubro, a Alemanha pedia o armistício, e a guerra terminava.”



IX (propósito - o inicio).

José Engling. É o modelo para toda a família de Schoenstatt, (padres diocesanos e religiosos, irmãos e irmãs seculares, jovens, mães, famílias, e os fiéis em geral).
A “idéia predileta” está presente no ideal de milhões de pessoas. A capelinha do cemitério é um dos Santuários mais visitados. E existem vários outros Santuários de Schoenstatt, no mundo inteiro que foram conquistados com o mesmo ideal do Primeiro, com a mesma forma material e espiritual.
E uma das grandes lições que assimilei com José, foi quando percebi: “que é preciso crescer muito para descobrir que o importante é ser pequeno”.



“De hora em hora: Deus, o bom Pai dos homens, está comigo. Ele vê como faço uso do meu impulso inato de ajudar os homens”.
(José Engling)


IMK

Nenhum comentário: