
Canoinhas - Foi através do resultado das primeiras análises de água que as famílias da Microbacia Rio do Tigre, no município de Canoinhas, despertaram para um problema sério que pode comprometer a saúde.
Com o trabalho de monitoramento da qualidade da água de consumo, iniciado pelo projeto Microbaicas 2 em 2004, foram determinados 13 pontos de coleta e todos apresentaram alto índice de coliformes fecais. Esta constatação não ficou restrita à Microbacia Rio do Tigre. No município são trabalhadas outras sete microbacias, onde também foram realizadas análises de água e em praticamente todas, o índice de coliformes fecais foi alto.
Mesmo transparente, a água que não é tratada pode conter coliformes fecais, encontrados nas fezes de todo animal de sangue quente. Sua presença na água sinaliza contaminação por microorganismos capazes de causar uma variada gama de doenças, desde diarréia e micose de pele até hepatite. De acordo com a legislação, a água só é considerada potável quando o índice de coliformes fecais é zero. Por isso, quando iniciou o trabalho de monitoramento, a agricultora Lourdes Novak ficou preocupada. “A gente nem sabia o que poderia estar contaminando a água”, revela. Assim como dona Lourdes, muitas das 1225 famílias atendidas pelo Microbacias 2 no município não tinham conhecimento sobre o assunto.
Com o resultado das análises em mãos, foi iniciado um grande trabalho de conscientização e de mudança de comportamento. “Como o problema não era localizado só em uma comunidade, fizemos diversas reuniões envolvendo as famílias de todas as microbacias. Foram mais de dois meses de encontros”, conta a extensionista da Epagri, Josiane de Souza Passos. Durante as reuniões, uma enfermeira da Prefeitura ajudou a esclarecer dúvidas sobre os agentes poluidores da água e sobre os riscos de beber água contaminada com coliformes fecais.
A partir daí foram desencadeadas diversas ações. Como no meio rural do município o costume é utilizar água do poço, as famílias começaram a prestar atenção em questões que às vezes passavam despercebidas: a localização do poço, a importância de fazer limpezas periódicas e mantê-los tampados, além da necessidade de cercar o entorno para evitar o acesso de animais. Muitas famílias também passaram a fazer revisão dos poços já que uma estrutura comprometida - como paredes se deteriorando-, pode prejudicar a qualidade da água, sobretudo em relação à turbidez e coliformes. Mas, entre os agentes contaminantes que mais preocupavam estava a falta de saneamento rural. “Muitas famílias não tinham nem banheiro”, lembra a extensionista. Este foi um dos pontos priorizados pelas associações de desenvolvimento das microbacias do município e, com apoio do Projeto Microbacias 2 e da Prefeitura foram construídos dezenas de banheiros com fossas e filtros.
Outro passo importante foi a conscientização das famílias para a limpeza dos rios. Agora o Rio do Tigre e o Rio Vermelho, que cortam a microbacia monitorada, recebem cuidado especial. Quatro mutirões já foram organizados. No primeiro a quantidade de lixo recolhida foi muito grande, muita coisa foi retirada: pneus, geladeira, sofá e até pulverizador com veneno. “Este ano aconteceu mais um mutirão e a quantidade de coisas diminuiu muito. Dá para perceber que todos estão mais conscientes. Todo mundo participa”, conta o técnico facilitador da microbacia, Alvir Marcelo Fuck. As famílias foram orientadas a aproveitar o lixo orgânico e conseguiram, em parceria com a Prefeitura, que um caminhão passe nas comunidades a cada 15 dias para recolher o lixo seco. A expectativa agora é para o repovoamento de peixes no Rio do Tigre, para isso as famílias querem firmar parceria com universidades da região.
A propriedade de Irineu e Lourdes Novak, na comunidade Encruzilhada, Microbacia Rio do Tigre, é um recanto de belezas naturais. O casal faz questão de preservar a mata nativa formada por araucárias, canjaranas e canelas sassafraz e, tem orgulho em dizer que o Rio Vermelho nasce ali. Nas terras, Irineu e Lourdes produzem uva, amora, cebola, tem gado de leite e criam carneiros. A propriedade é bem cuidada, uma herança para Eduardo, o filho mais velho do casal que estuda no colégio agrícola e que vai seguir os passos dos pais.
Um dos pontos de coleta de água para análise fica na propriedade dos Novak. O casal de agricultores levou um susto quando descobriu que a água que a família consumia apresentava alto índice de coliformes fecais. Várias medidas foram tomadas. Na propriedade já havia banheiro e fossa filtro por isso as atenções ficaram voltadas para o poço que foi esgotado e limpo. “A principal atitude foi mudar a localização da horta que ficava encostada ao poço e que era adubada com esterco da criação de carneiros”, conta Irineu. Uma nova análise deve ser feita nos próximos meses para saber se a contaminação da água por coliformes fecais foi zerada ou diminuiu. Com medidas, muitas vezes simples como esta, muitas famílias das microbacias monitoradas estão conseguindo zerar o índice de coliformes fecais.
Fonte: Microbacias
Nenhum comentário:
Postar um comentário